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Os novos investimentos na cidade-mercadoria

A nova engrenagem do centro

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Por Kauan Marcus da Cunha

Churrasco entre entregadores no centro de São Paulo. Foto: REOCUPAÇÃO CENTRAL/Luana Taquatiá

     Nos últimos anos medidas de segurança, arquitetura, políticas de moradia e os projetos de requalificação urbana têm redesenhado o Centro Histórico de São Paulo. Essas transformações não impactam apenas a ocupação do  espaço urbano, mas também a dinâmica econômica da região. Segundo a arquiteta e urbanista Juliane Bellot, historicamente, a região do centro histórico de São Paulo perdeu qualidade de vida não por falta de infraestrutura, mas porque deixou de ser um local de moradia, gerando uma frequência fracionada que esvazia as ruas à noite e aos finais de semana. Hoje, o território vive um ciclo de atração de bilhões em investimentos, mas que expõe um conflito agudo entre a especulação imobiliária, a cultura como vitrine e a economia de sobrevivência.

     Após décadas sofrendo com a migração das elites e sedes corporativas para a Avenida Paulista e, posteriormente, para o eixo Faria Lima-Berrini, o centro histórico tenta reverter o esvaziamento. Segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em 2024, a região registrou o primeiro saldo empresarial positivo desde antes da pandemia: 291 novas empresas abriram, contra 281 fechadas. No "centro expandido", o ritmo é ainda maior, com um salto de 50% na abertura de empresas e mais de 33 mil novos registros. Esse reaquecimento é impulsionado por incentivos fiscais do poder público, como redução de Impostos Sobre Serviços (ISS) e Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), focados nos setores de varejo, tecnologia e serviços avançados.

     Para Juliane, sem residentes fixos, as ruas e o comércio se esvaziam à noite e aos finais de semana, quebrando a vigilância natural do território. Ela defende que ocupar os diversos edifícios abandonados com habitação para a população de menor poder aquisitivo traria vida constante à região, mas ressalta que isso “infelizmente não interessa ao mercado".

     A contradição apontada pela urbanista é escancarada pelos números oficiais. De acordo com os dados do Censo 2022, a cidade de São Paulo possui hoje 588.978 domicílios desocupados, um número que mais do que dobrou nos últimos 12 anos. Esse volume de imóveis vagos representa 12 vezes o tamanho de toda a população em situação de rua da capital. Ou seja: enquanto o esvaziamento noturno gera insegurança, centenas de milhares de imóveis ociosos são retidos pela especulação, impedindo que a moradia traga a vida e a segurança definitiva que a região precisa.

Prédios deteriorados no Vale do Anhangabaú. Foto: REOCUPAÇÃO CENTRAL/Luana Taquatiá

     A economia criativa, a gastronomia e a cultura tornaram-se os grandes motores de transformação do Centro, alinhadas a um novo espírito do tempo e a um comportamento que valoriza a ocupação do espaço público e a busca por experiências urbanas em vez do acúmulo de bens. O poder público e a iniciativa privada utilizam ativamente a cultura como ferramenta de marketing urbano (a ideia da "cidade-mercadoria"), instalando ou reformando grandes equipamentos – como a Praça das Artes, a Pinacoteca e o Sesc 24 de Maio – para vender uma imagem saneada, atrativa e competitiva da região, visando atrair novos investimentos.

     A segurança tornou-se a métrica final para a tentativa de reativar a circulação na região. Impulsionado por novas Bases Comunitárias da PM, a adoção de câmeras de reconhecimento facial e o desmonte do uso contínuo de cenas abertas de uso de drogas, o centro de São Paulo atingiu em 2025 o menor número de roubos em 25 anos.

     Nas ruas, essa queda estatística é materializada por uma forte presença ostensiva e tática. O Cabo Christopher, policial militar que atua na região há sete anos, explica que o declínio criminal é resultado direto da desarticulação de comandos do crime organizado em pontos estratégicos, como a favela do Moinho e a Rua Guaianazes. Para o pedestre e o comerciante, esse esforço se traduz na sensação visual de ter "praticamente uma viatura em cada esquina" da região central.

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Operação da polícia na praça da Sé. Foto: REOCUPAÇÃO CENTRAL/Luana Taquatiá

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     Contudo, a queda estatística nos índices criminais e a forte presença policial não se traduzem em um alívio unânime para a economia local. A atuação do Estado esbarra em um efeito colateral complexo que afeta diretamente o dia a dia de quem tenta manter as portas abertas: a dispersão dos usuários de drogas da antiga Cracolândia.

     De um lado, comerciantes relatam que o espalhamento dos dependentes químicos degradou novas ruas comerciais, afastou clientes e piorou a sensação de segurança no entorno imediato de suas lojas. De outro, a Polícia Militar argumenta que a dispersão não foi uma tática intencional da corporação, mas uma consequência orgânica do desmonte dos comandos do tráfico, ressaltando que a solução definitiva para essas pessoas nas ruas foge do escopo policial e exige ações integradas de saúde e assistência social.

     No fim, a revitalização do centro não pode ser medida apenas pelo número de obras concluídas, investimentos realizados, prédios reformados, estratégias de segurança aplicadas ou eventos culturais planejados. Ela depende da capacidade de fazer com que as pessoas que vivem, trabalham e visitam a região se sintam pertencentes a ela, pois antes de qualquer projeto urbano, são essas pessoas que realmente fazem o centro existir.

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