top of page

Quem frequenta e quem fica à margem da cultura na cidade

O centro velho que bombeia as tradições de São Paulo

Por Luana TaquatiáVitória Mendes 

Templo da Luz, exposição na Virada Cultural 2026. Foto: REOCUPAÇÃO CENTRAL/Luana Taquatiá

    A virada cultural não é apenas mais um evento de cultura entre os vários espalhados pelo Brasil. Ela é realizada em São Paulo, a cidade eleita como a sétima mais cultural do mundo de acordo com a revista britânica “Time Out”, e a única localizada na América Latina. Nesta lista, perde para as europeias Londres, Paris e Berlim, para a norte-americana Nova York, a sul-africana Cidade do Cabo e a australiana Melbourne. Essa é a prova dela como um dos corações da cidade. Sua essência é marcada pelo mar de possibilidades que disponibiliza, e neste ano de 2026 segue tendo o centro como seu polo principal, onde as maiores atrações continuam firmes no palco do vale Anhangabaú, mas se engana quem pensa que o final de semana intenso dos dias 23 e 24 de maio se baseiam apenas em música, pois foram mais de 1,2 mil atrações espalhadas por 22 grandes palcos espalhados pela capital paulista, mais as atrações em museus, teatros, bibliotecas e centros históricos.

     A riqueza de São Paulo se perde na complexidade da palavra, a cultura representa um conceito abstrato para muitas pessoas, sem poder ser definida de uma só maneira. É possível utilizar uma visão popular, que se resume à arte, ou uma visão antropológica, definida ao modo de vida de um grupo social, ou até sociológica, que explica o modo em que uma sociedade interpreta noções de certo e errado. No fim, o termo possuí sempre um coeficiente em comum: as pessoas.

     Entretanto, o estudo “Cultura nas Capitais”, realizado pela JLeiva Cultura & Esporte em parceria com o Itaú Cultural em 2025, demonstra que moradores de regiões periféricas frequentam menos museus, teatros e centros culturais, apontando barreiras como custo, distância e falta de identificação com esses espaços, mas a Virada veio para que estas pessoas tivessem acesso a cultura, não?

Foto: arte/REOCUPAÇÃO CENTRAL

     Em uma cidade em que pessoas demoram cerca de 30 minutos a 2 horas para chegar no trabalho, escola ou faculdade, a partir de dados divulgados pelo censo demográfico de 2022 pelo IBGE, o centro perde espaço de acolhimento cultural para ser um cenário de passagem, deixa de ser um local convidativo para ser evitado, remete a cansaço, rotina e exaustão, em que o trabalhador apenas espera a volta para casa, afastada a quilômetros de seus empregos.

     Desse modo, ao pensar em uma fronteira é possível imaginar uma barreira construída, como o muro que divide os Estados Unidos do México, ou a Coreia do Sul da Coreia do Norte. Também é possível imaginar barreiras naturais, como o rio São Francisco, que divide Alagoas de Sergipe, mas além das barreiras físicas, existem as barreiras sociais, divisas entre estados que são definidas apenas por placas. A diferença no jeito de falar, no modo de se portar, tudo demonstra que você está em um território diferente, mas e quando tudo isso acontece e você nem mesmo saiu da cidade? Bem, aí você percebe que está na cidade de São Paulo.

     A zona leste da cidade é historicamente considerada uma macro-região “dormitório” por ter forte dependência do centro. De acordo com dados da pesquisa “Origem e Destino” realizada pela Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo em 2023, aponta que diariamente são feitas cerca de 624 mil viagens por dia de transporte coletivo, sendo metrô, trem ou ônibus, tendo zona leste como origem e o centro como destino, e 671 mil viagens por dia com transporte individual. Então como é possível que alguém crie algum laço de pertencimento a uma região que diariamente a desgasta? É simples, não cria. Ao conversarmos com Wallace, policial militar atuante no bairro da Sé, o trabalhador afirma que não frequentaria a região do centro em busca de lazer.

Acho que por trabalhar aqui você acaba conhecendo as mazelas, por isso que eu não gosto de vir, mas é um lugar bonito, aqui é turístico, né? Tem os prédios históricos, é um lugar que, pra quem gosta, é legal.

Wallace, policial militar

     A fala evidencia uma contradição que está presente no centro paulista, que ao mesmo tempo que abriga um dos maiores patrimônios  históricos e culturais, também enfrenta dificuldades para ser visto como um espaço de permanência. O reconhecimento da arquitetura local e da importância turística não são suficientes para que os visitantes se aproximem mais.

Foto: arte/REOCUPAÇÃO CENTRAL

     Os dados apresentados pelo IBGE, demonstram que embora o centro continue sendo um dos principais destinos diários da população, o tempo de deslocamento contribui para que a região seja vista mais como um ponto de obrigação a ser passado, do que como um lugar de convivência, sobrando pouco tempo para que as pessoas mantenham vínculo e gosto pelo território.

     A revitalização do centro de São Paulo chega mais uma vez como um ato de urgência, porém ele vem se reciclando desde os anos 90, com melhorias, reforma das vias, restauração de prédios, criação de novas áreas verdes e a introdução de novos transportes, prometendo sempre transformar a região num novo foco de moradia, negócios, cultura e lazer, mas depois de tantas tentativas, o que tem faltado para ser realmente uma medida efetiva que não precise mais ser repetida? Conversando com a historiadora Bruna False, trouxemos alguns questionamentos sobre sua perspectiva sobre o assunto.

Bruna historiadora.mp4

     Portanto, o que cabe ainda a ser feito? Os 21 anos da virada seguem vivos, mas frios se comparado com o que um dia já foi. O centro é turístico, é histórico, mas não é vivo, com o tempo se tornou aquele quadro famoso em um museu estonteante, o centro velho se torna a mona lisa no Louvre que espelha São Paulo, tem visitantes, apreciadores, especialistas, mas ninguém passa para ficar, quem permanece são os socialmente excluídos, moradores de rua, que constantemente se veem vítimas de uma “higienização”, pois, além de tudo, é preciso deixar o museu limpo para seus visitantes mais requintados.

bottom of page